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PERFIL – Uma Mulher Fora do Programa

SHEYLA DE AZEVEDO
DO NOVO JORNAL

MARCAMOS PARA O final da tarde. Cinco minutos depois da hora combinada, ela liga com uma fleuma discreta, avisando que vai chegar “um pouco atrasada”, como quem pede desculpas pelo trânsito ruim e pelo fato de ter praticamente atravessado a cidade de um ponto a outro, para chegar ao local marcado: o Nalva Melo Café Salão. Lugar que tanto serve para palco de suas performances, quanto para esteio de suas ideias, já que Nalva Melo, a dona, é também uma grande amiga.

“A minha vida é mais ou menos atrapalhada porque eu sou muito atrapalhada”, vai logo dizendo assim que chega, uns 25 minutos fora do combinado, enquanto pede um café grande “pingado” e uma água com gás. Civone Medeiros, 38, pouco mais de 50 quilos em 1,63 metro, pele branca, olhos expressivos, cabelos castanhos escuros, quase sempre com um cigarro passeando pelos dedos e lábios, pode até ser meio atrapalhada, mas é muito mais do que possa falar – e ela fala – porque é, sobretudo, uma moça das letras. Eu não estou à frente da minha poesia/ eu não estou dentro da minha poesia./ A verdade é que eu sou a poesia (Adentro – Escrituras Sangradas 2009). Ou uma mulher que tem coragem de se despir – “nunca ficar nua”, faz questão de diferenciar - para deixar o corpo esculpir a mensagem que quer passar. Como ela própria se define em seu site (www.naredecomcivone.blogspot.com) é “multiartista, poeta, performer, produtora cultural e curadora. ARTivista e CyberPunk. Trabalha com internet, cinema/vídeo, cenários, moda, performances e intermídias. Vive em Natal e trabalha no Mundo”.

A filha de Cícero, já falecido, e dona Ivone, mãe de Bianca, 15, não terminou a 8a série. Mas a falta de vivência escolar foi suprida pela inquietação de viver. Cinco anos na Áustria – país para onde se mudou em 1999 com a filha pequena – lhe renderam para início de conversa a segunda língua, o alemão.“A língua alemã é totalmente imagética”, explica o que lhe deu a chance de desenhar na mente as palavras que estava absorvendo na época do aprendizado. Além disso, compreende inglês e lê francês.

“A minha educação afetiva foi dada pelos amigos”, revela em meio a uma informação qualquer anterior, que parecia a mais trivial. Para em seguida explicar que o pai era mecânico da Volkswagen, e a mãe possuía uma força interiorana que a fez sair do analfabetismo no interior do Estado para se tornar professora primária na capital. Mas em casa não tinha muito afeto, abraço, aconchego. Daí essa necessidade desde cedo de abraçar o mundo, a rua, conhecer a noite e seus seres.

Antes do enlace matrimonial com as palavras, Civone Medeiros flertou com o balé clássico e o teatro. Este segundo sob a batuta de Véscio Lisboa. Mas achava tudo muito paradão. Ensaiar meses, depois repetir aquele texto inúmeras vezes nos palcos não lhe prenderam por muito tempo. Em 1994 se “encontrou” na Arte Visual e na escrita. O teatro lhe permitiu um domínio de palco que ela levou para a vanguarda de suas performances. Atividade artística que lá no início dos anos 1990 chamara a atenção do jornalista e escritor Paulo Augusto Queiros, que certa vez teria escrito que Civone Medeiros “é uma garota fora do programa”. Aliás, tendo ou não intenção de ser profético, Paulo Augusto enveredava por uma característica intrínseca do trabalho da artista: estar à margem. Principalmente se isso significasse que ela estaria longe do convencional e da mediocridade. “Nunca fiz trabalho bonitinho. Que fosse para agradar”, diz a poeta que já lançou a exposição Privatesfera, uma instalação na qual ela mostra peças íntimas suas e de sua família. “Podem até pensar que é, mas não é fácil nada. Me dói e eu sei que pago caríssimo por romper esse hímen que a sociedade me impõe”. Claro que também tem trabalhos que ela faz que são divertidos e plasticamente agradáveis aos olhos do espectador. Como o recente ensaio fotográfico clicado pelo profissional Flávio Aquino, no qual Civone Medeiros empresta o corpo e a alma para encarnar Janis Joplin, que o leitor pode ver em algumas fotos que ilustram esta reportagem.

Durante um tempo, a “rebeldia” inata seja nas performances, na forma peculiar de escrever e de expor ao mundo suas opiniões lhe rendeu uma certa, digamos, “geladeira” por parte dos jornais locais. No ano 2000 Civone Medeiros foi responsável porum projeto que levou dezenas de artistas potiguares para aquele país, onde puderam mostrar a arte produzida no Estado. Ela conta que enquanto viveu na Áustria tentava acompanhar o que estava acontecendo em Natal e se deparava com informações sobre bandas e atores que traziam peças teatrais enlatadas de outros locais, por exemplo, e não encontrava o mesmo espaço para o que os artistas do Rio Grande do Norte produziam. Foi quando ela fez o seguinte comentário que causou polêmica: “O Viver é a morte e o Muito é pouco”, referindo-se aos dois cadernos culturais, respectivamente, da Tribuna do Norte e do Diário de Natal.

Mas a falta de espaço nos veículos convencionais de informação nunca lhe pareceu um problema: “Aprendi a me virar sozinha – e dá uma gargalhada rouca – tenho uma porção de blogues e sites, como o Na Rede com Civone, o trabalho com os postais, o programa de entrevistas com pessoas de distintas expressões”, sai enumerando as ações que circulam pela internet e não deixam sua produção artística no escuro da desinformação. Além do trabalho de poeta, Civone Medeiros atualmente colabora na ONG ICAP - Instituto Cultural e Audiovisual Potiguar (Ecos do Bairro), e trabalha com tecnologia da informação dentro da gestão pública, sob o novíssimo conceito de transparência. “É um serviço de desenvolvimento de softwares que automatiza e publiciza a contabilidade pública”, resume.

Intensa e sem papas na língua, depois de revelar fatos como a vinda da filha Bianca ao mundo, depois que ela tomou a decisão de não fazer mais aborto; que encontrou o ex-marido – opressor e machista – na cama com outro homem, o que a fez sair de casa, sempre na busca de ser “a protagonista” de sua própria história, e sendo permissiva com as indagações dos outros, tem perguntas que ela não perdoa: “certa vez um repórter me perguntou se as pessoas me consideravam muito „doidona‟. Aquilo me arrepiou toda. Eu disse a ele, pergunte a elas! Mas esse tipo de rótulo pode ser porque eu assumo meus atos. Não faço jogo, não tenho necessidade de ser conveniente. É difícil viver numa sociedade – impregnada de regras – na qual o cabelo não pode estar assanhado, você não pode não ter colocado perfume. Eu só sei que só quero dizer a minha verdade. Ser eu mesma e pagar o preço. "Eu quero ser consumida por quem quer me consumir”, desabafa. Não quero uma obra/ que tenha valor/ de mercado./ Quero uma obra que tenha valor de expressão. O poema Humana Ambição (Escrituras Sangradas Ave de Arribaçã ou a Propósito de Viena e Outros Ondes) parece traduzir esse sentimento.

E que consumir jamais se confunda com consumar. Porque Civone Medeiros embora às vezes admita uma certa fragilidade até mesmo física – pelas noitadas que já desfrutou – parece que não vai parar tão cedo de fazer arte e de sentir um “alívio são” de ter se expressado, se comunicado, seja com a voz, o corpo ou com os olhos com seu interlocutor.


1ª Edição em 4/06/2010 } http://www.novojornal.jor.br/
@NovoJornalRN } www.twitter.com/NovoJornalRN

2ª Edição em 17/11/2010 } Edição Especial de 1 Ano do NOVO JORNAL }


Tristesse... Adieu Grand-Mère Bourgeois!

Esta mulher sempre me influenciou... Desde que a descobri em uma citação... E olha só... Era apenas uma frase sem ilustração alguma... Abaixo, vinha uma descrição do que ela fazia... Produz/ia e cria/va... De cara, adotei-a como minha Grande-Mãe...

Ok, ok... 98 é muito! E ela é dessas almas que quando chegam nesse mundo, jamais passam... FELIZMENTE, então!

Tout mon'amour... pour Louise... Que nunca separou arte de vida... E dizia assim: “Eu sou aquilo que faço”

Veja + no Blog PERFORMARE... 


[c.m]

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DENCIDADE - Intervenções Urbanas & Humanas via Conexão Artes Visuais / Funarte...


Projeto 'denCIDADE'

Concepção/Idealização e Coordenação Geral
SANZIA PINHEIRO
SAYONARA PINHEIRO


Artistas Participantes
ADRIANA LOPES/RN
ANDRÉ KOMATSU/SP
BRUNO MONTEIRO/PE
CIVONE MEDEIROS/RN
GABRIELA POSADA/RN
GUARACI GABRIEL/RN
ILKES ROSEMIR/RN
J. PINHEIRO/RN
JOSÉ FROTA/RN
JEAN SARTIEF/RN
JOÃO NATAL/RN
J. CASTRO/RN
JÚLIO LEITE/PB
LOURIVAL BATISTA/PE
MARCELO AMARELO/RN
MARCELO GANGHI/RN
MARIANA SMITH/CE
ANCHIETA ROLIM/RN
RONALD DUARTE/RJ
SANDOVAL FAGUNDES/PB
VINICIUS DANTAS/RN
WAGNER BARJA/DF


Palestrantes
ALEXSANDRO FERREIRA
AUCIDES SALES
GOULVEN JAGOT
RONALD DUARTE
WAGNER BARJA


Assessoria de Imprensa
MICHELLE FERRET

Coordenação Zona Norte/Nossa Srª da Apresentação
CARLOS ANDRÉ
SORAYA LOPES


Auxiliares de Produção
ALMIR SOARES
DAYANA ESTEVAM
JACKSON GARRIDO
LETTO OTEL
Mª EDUARDA
NÚBIA NEN


Documentação
WLAMIR CRUZ
SONGY
J.CASTRO


Realização
FUNARTE / MINC

Patrocínio
PETROBRAS

Natal/RN - Brasil


ECO-PRESS
www.fermentacoesvisuais.blogspot.com/dencidade
www.nominuto.com/vida/cultura/a-construcao-de-uma-historia
www.nominuto.com/vida/cultura/projeto-dencidade-discute-arte-com-a-comunidade
tribunadonorte.com.br/noticia/arte-para-mudar-a-paisagem
tribunadonorte.com.br/noticia/projeto-dencidade-aporta-em-natal

Veja + > vimeo.com/civonemedeiros

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nArede.com/JACKSON GARRIDO... tODO dIA, Dia de POETAS... Dia de POESIA!


14 de MARÇO - Todo Dia, Dia da Poesia de Civone Medeiros

14 de MARÇO - Todo Dia, Dia da Poesia de Civone Medeiros
http://vimeo.com/3582569

About this video:
"QUEIMAÇÃO de FILME apresenta:

...14 de MARÇO - Todo Dia, Dia da Poesia (Aconteceu em 2006) no Beco da Lama & Adjacências

ESTRELANDO:
Jackson Garrido

& mais Poetas!

~~~

Créditos:

SEM DIREÇÃO
SEM ROTEIRO
SEM GRANA
SEM PRODUÇÃO
SEM APOIO OFICIAL
SEM MALÍCIA
SEM VERGONHA

Apenas...
POETAS & POEMAS

CULPADA:
Civone Medeiros

MONTAGEM & EDIÇÃO:
Luiz Peres

REALIZAÇÃO:
QFP - Queimação de Filme Produções

Natal/RN, 2006"

LOVE,
vimeo

XIII SALÃO DE ARTES VISUAIS DA CIDADE DO NATAL, tem lançamento nesta Sexta!


clique no cartaz para ampliar!


CONFIRA AS NOVIDADES DO SALÃO DESSE ANO!   

           O XIII Salão de Artes Visuais da Cidade do Natal tem lançamento oficial marcado para esta sexta-feira, 13, às 19h, no auditório da Fundação Cultural Capitania das Artes, Funcarte. As inscrições acontecem a partir desta segunda-feira (16), no Núcleo de Artes Visuais da instituição, das 8h às 12h e das 13h às 17h.


Durante a abertura será divulgada oficialmente a arte do salão, as mudanças propostas para esta edição (e são muitas!), explicação sobre a inscrição e o cronograma de palestras e cursos que acontecerão como parte integrante desta edição que homenageia o artista potiguar Rossini Perez, que nasceu em Macaíba e inscreveu seu nome no circuito nacional e internacional como um dos melhores gravuristas de sua geração.

O XIII Salão de Artes Visuais de Natal começa trajetória implantando novidades...

A Fundação Cultural Capitania das Artes – Funcarte/PMN, lança nesta sexta-feira, 13, às 19h, no auditório da Capitania o XIII Salão de Artes Visuais da Cidade do Natal. As inscrições começam a partir da próxima segunda-feira, 16, no Núcleo de Artes Visuais da instituição, das 8h às 12h e das 13h às 17h.

Nesta edição o Salão homenageia o artista potiguar Rossini Perez, natural do município de Macaíba, conhecido nacional e internacionalmente como um dos principais gravuristas de sua geração. Ainda este ano, o artista será tema de retrospectiva no Centro Cultural da Caixa Econômica, em São Paulo.

A edição do Salão de Artes Visuais da Cidade do Natal deste ano apresenta mudanças significativas que resultam de um trabalho intenso feito no Núcleo de Artes Visuais da Funcarte, sob a direção de Sânzia Pinheiro. O Salão conta também com a colaboração de Jean Sartief, responsável pela coordenação do evento e do professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Everardo Ramos, responsável pela coordenação dos seminários.

Este ano serão 18 artistas selecionados, recebendo cada um a premiação no valor de R$ 1.350,00. Pela primeira vez, haverá uma premiação para a realização de um ensaio teórico no valor de R$ 2.000,00. Dois artistas serão convidados para integrar a exposição, sendo um local e um nacional. Além destas novidades, os artistas poderão indicar, no ato da inscrição um outro artista para participar da comissão de seleção – o artista mais votado integrará a comissão de seleção, caso não possa ou prefira não participar será convidado o segundo lugar, e em caso de empate ou impossibilidade, a comissão de organização indicará um dos artistas ou autoridade de notório saber no campo das artes visuais. O artista indicado que aceitar participar da comissão de seleção não participará do salão, como regra para manutenção da lisura do processo de seleção.

Outra preocupação da equipe organizadora do salão foi a de investir na capacitação dos artistas. Neste sentido está previsto cursos de pintura contemporânea, pesquisa de materiais, desenho expandido, mesas redondas e mostra de vídeo de exposições realizadas no Itaú Cultural. A programação ainda conta com palestras, oficinas e cursos, que acontecerão nos meses de dezembro e janeiro.

ROSSINI PEREZ

O artista potiguar Rossini Perez, homenageado na edição atual do Salão de Artes Visuais de Natal, nasceu em 1932, em Macaíba. Estudou na Associação Brasileira de Desenho, com Iberê Camargo e Vera Tormenta. Dedicando-se à gravura, foi aluno de Fayga Ostrower, em 1953. Freqüentou, em 1959, o curso de Johnny Friedlaender no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, onde, de 1959 a 1961, seria assistente da gravadora Edith Behring. Transferiu-se, em 1961, para a Europa, como bolsista da Unesco para especialização em litografia na Rijksakademie Van Beeldende Kunst de Amsterdam. Residiu em Paris, até 1972. De volta ao Brasil, fixou-se em Brasília, para posteriormente retornar ao Rio de Janeiro. Atualmente vive no Rio de Janeiro.

CRONOGRAMA

Inscrições com entrega dos portfólios: 16/11 a 30/12
Seleção: 08/01
Divulgação resultado: 11/01
Recebimento obras selecionadas: 12/01 a 18/01
Abertura da exposição: 22/01
Período exposição:     23/01 a 31/03
Devolução das obras: 05/04 a 30/04 - das 08 às 13h

 

Onde:
   

Fundação Cultural Capitania das Artes
Av. Câmara Cascudo, 434, Cidade Alta,
CEP 59025.280


Núcleo de Artes Visuais – 3232.4599

EXTRA! A Vovó da Performance na Revista Catorze!

revistacatorze

A Vovó da Performance: O que diabos é isso II?

  • terça-feira, outubro 6, 2009, 22:03

Civone Medeiros anda ocupada. A vovó da Performance – termo usado por alguns artistas pelo longo tempo em que ela se dedica a arte – organiza atualmente o "Escrituras Sangradas" uma série de intervenções performáticas e culturais que irão acontecer no dia 29 de outubro no Nalva Melo Café Salão, para celebrar os 15 anos do local. Entre uma ocupação e outra ela – que desde 1988 realiza performances na cidade – teve tempo de responder uma entrevista que enviamos por email.

Na entrevista ela fala um pouco da sua carreira e da história da performance aqui em Natal, sobre a concepção das suas apresentações e nos ajuda a destrinchar e tentar entender um pouco mais sobre esse tipo de arte.

Catorze: Como começou na Performance:

R. – Minha trajetória nas artes, começou aos 11 anos com um trabalho de teatro na escola, à época, o Inst. Pe. Miguelinho, de lá participei duma seleção para ingressar na escola de danças do TAM, fiz 4 anos de dança, que é meu começo nas artes. De lá, fui para o Teatro Mágico do Vercio Lisboa/Subhadro, com um teatro fragmentado, experimental à medula e que me empurrou no abismo libertário e maravilhoso da Performance. Nesse ínterim, 1988, me envolvi de corpo e alma com o Movimento OXENTE! De intervenções urbanas e performáticas. Viajamos pelo Brasil e realizamos inúmeros projetos.

Catorze: Como são feitas as concepções das apresentações?

R. – Como trabalho com diversas mídias, linguagens e suportes, não tenho uma linearidade nem dedicação exclusiva para a Performance. E muitas vezes, meus trabalhos fundem-se uns nos outros ou derivam entre si.
No meu processo criativo, trabalho com o que o John Cage definiu como Partitura aberta – defino tema, título, elementos, sentimentos, um 'possível' início, um ápice para a Performance e uma finalização mentalizada; nesse entremeio, entre início e meio, deixo a partitura totalmente em aberto, para reações com meu entorno, seja ambiente ou humano. Do mesmo modo entre o ápice e o final, também me proponho a mesma prática. Performance é aqui e agora.

Catorze: Como é a recepção do público com suas performances?

R. – Não há como planejar minhas próprias reações aos encontros e desencontros com meus semelhantes. Não há como prever as reações dos outros, os acasos bem vindos que sempre vem e os até não desejados ou calculados… Performance é risco. O risco de ser verdade. E se não o for, se for mera representação é puro espetáculo. Válido enquanto arte-espetáculo. Mas, não é tão Performance, não.

Bem, no rastro da minha trajetória, e pela escassez de acesso e difusão de conhecimentos a cerca da Arte da Performance para o crescente interesse nesta prática artística, surgiu a Plataforma PERFORMARE (exatamente, visando a formação, ou seja, a auto-formação) que é um projeto no plano Virtual & Real, com Blog (http://performare.blogspot.com), Comunidade no Orkut, Acervo e Grupo de Difusão da Performance-Arte e Oficinas/Palestras. Compartilhando Idéias Convergentes e Díspares, estes espaços também visam captar, divulgar e fomentar os Performers Potiguares, num mergulho profundo sem bomba de oxigênio no âmago da História da Performance, Precursores, Práticas, Contradições, Desvios, Conceitos.

A plataforma conta com um acervo de imagens online, que está sempre sendo ampliando assim como temos também o Acervo Documental em diversos idiomas. É uma fonte hipertextual riquíssima para pesquisas, estudos, práticas.

Catorze: Fale um pouco da performance aqui em Natal. Como começou. Quem produz.

R. – Há indícios pouco documentado e registrado, desde meados dos anos 60s, com performances e performers ativistas, desde a geração mimeógrafo, onde posso citar Jota Medeiros, Falves Silva, Moacy Cirne* e vindo dos 70s aos 80s com Plínio Sanderson, Eduardo Alexandre, Carlos Gurgel, Marcelo Fernandes, Marcellus Bob, entre outros.

Já no fim da década de 80s e meados dos 90s, o Movimento OXENTE! chega com mais veemência entre a prática de performance e intervenções urbanas e ambientais. Do movimento, fizeram parte entre outros: Saionara Pinheiro, Guaraci Gabriel, Civone Medeiros, Cícero Cunha…

Atualmente, destaco a Múcia Teixeira, o Enio Cavalcanti, o Disfunctorium, o Allan Chaves, Maribondo Cabôco, Guaraci Gabriel, Agatha Montecinos, e outros que não lembro o nome agora.

Catorze: A Performance é uma arte marginal?

R. – A margem é dua, e há o meio. O meio é a terceira margem, para alguns artistas, inserção, imersão, repulsa. Tudo que é de difícil definição e digestão passa ao largo das práticas culturais estabelecidas e até mesmo propagadas pela academia, que ainda hoje, dita – em parte – a regra do que é arte para se estudar e formar nas universidades.

Catorze: Já houve um evento significativo na terrinha (se houver, como foi?)

R. – Há alguns acontecimentos que ficaram marcados. Nesse caso, posso falar mais dos quais vivenciei/realizei, como a Performance LILITH dentro da programação da Maratona Fotográfica – na travessia da balsa rocas-redinha, em 1997; mais recentemente, o Coletivo Maribondo Cabôco de Performance-Teatro deu seu start no 8 de Maio realizado pela Funcarte, em 2007; o Maribondo está em meio a uma 'pause'. O Projeto Disfunctorium se caracteriza principalmente pela Dança-Performance e desponta como um trabalho consistente de pesquisa e realização performática.

Catorze: Como se estuda essa arte por aqui?

R. – Performance-Arte é por si, uma arte híbrida, daí sua difícil classificação. Hoje em dia é que vem sendo mais absorvida por outras artes e artistas mais formais e/ou formalizados… Tais como teatro, dança, etc. O DEART/UFRN deu início aos estudos e práticas de Dança Performance, disseminando entre estudantes, artistas e público algumas variantes da Arte da Performance. Hoje em dia, há coletivos que estudam, pesquisam e praticam por conta própria – mesmo estando inseridos na academia, como o Projeto Disfunctorium e o Maribondo e nos últimos 2 anos, iniciei as Oficinas PERFORMARE – realizando a Oficina #1 no 8 de Maio/2008 no CEMAI/FUNCARTE e a Oficina #2 na I Mostra de Artes Visuais do DEART/UFRN, que foi excelente.

Catorze: Como é o cenário aqui na cidade?

R. – O cenário é a cidade. Aqui, se pratica muito mais a Dança-Performance, o Teatro-Performance… Que é performance menos narrativa, menos ensaiada. Há um roteiro aberto? Uma Partitura, elementos composicionais? É Performance. Há ensaios, marcações e falas rígidas? É dança, é teatro, e um pouco menos Performance. Nesse sentido, sou das mais puristas das Performers. Como diz Sheila Leiner, "A performance é uma pintura sem tela, uma escultura sem matéria, um livro sem escrita, um teatro sem enredo… ou tudo isso…".

Catorze: Qual a relação da Performance e outras artes?

R. – Essencialmente, a Performance é a investigação criativa da interseção do tempo, o espaço e o corpo. Seu âmbito de interesse parte das artes visuais e não se limita só às artes visuais, estende-se mais além de territórios fronteiriços com outras disciplinas e fontes, das quais bebe e se nutre.

O termo Performance é um anglicismo tomado a partir de verbo Inglês to perform significado essencialmente representar, interpretar, agir. No âmbito anglo-saxão, o termo aplica-se tanto no mundo do teatro, cinematográfico, sexual, esportivo ou musical. Na Europa latina, desde o início do século, a palavra Performance ganhou força em comparação com outros termos equivalentes, como ação, arte de ação, arte de comportamento… Hoje em dia, o termo se refere quase exclusivamente a um tipo de trabalho artístico de caráter presencial dentro da área de artes visuais. Mas tanto quanto ilimitado como pelo dinâmico do conceito, a Performance assume muitas formas e manifestações: desde os mais complexos projetos tecnológicos às mais simples manifestações presenciais, tudo tem cabimento no universo performativo.

Catorze: Quando é performance, quando é teatro?

R. – Performance-Teatro é uma modalidade da Arte da Performance. Teatro é Teatro. Há ensaio. Marcações. Narrativa fechada. Teatro é essencialmente mais espetacular. Performance não é espetáculo. Não se representa uma performance. É a vida como ela se apresenta. Se vive. Se especula.

"A performance, num sentido estritamente ontológico, é não reprodutiva. E é essa qualidade que faz da performance o parente pobre das artes contemporâneas. A performance estorva os maquinismos suaves da representação reprodutiva necessários à circulação do capital." (PHELAN)

Catorze: Uma provocação: "Todo merda agora é arte?"

R. – Re/provoco: "Toda Arte Agora é Merda?" Tudo em que nossa capacidade sensorial e estética se limita, no eixo do que não compreendemos, é aproximado do estranho, do imprestável… Então, o que não está no rol de nossos conceitos como aceito ou aceitável deixa de ser arte? Cito o Ralph Waldo Emerson: "A manifestação consciente do pensamento, por meio da fala ou da ação, com qualquer fim, é Arte… De sua primeira a sua última obra, a Arte é o uso voluntário do espírito e a combinação de coisas para servir a seu fim." Então, nem toda obra é arte. Nem toda arte é merda. A arte é meio. Não é fim.

Catorze: Como é a relação do artista que faz performance com o público?

R. – Há na prática de cada artista, a pré-proposta e/ou abertura para a vivência una com seus entorno seja estético, sensório, humano. Por exemplo, há performances e performers que se propõe a uma intensa e desejada troca com os participantes e há outras em que é mais uma vivência do artista e se abre ao outro, aos olhos dos outros como mero observadores. Há também dentre as diversas variantes da performance aquelas que acontecem sem o 'percebimento' de outras pessoas, ou seja, a dita performance invisível… Ela acontece, se registra e se difunde posteriormente. Aliás, uma das características mais marcantes da Performance-Arte é a irreprodutibilidade de sua ação; pois se se executa a Performance em outro momento e contexto, ela passa a ser outra, mais uma, mesmo sendo uma variante da inicial. Há uma ilustração sobre essa questão, que gostaria de reproduzir: "Artista, obra, público são elementos estéticos da performance. O quarto elemento estético é o tempo. A performance artística se dá no tempo, sua efemeridade é condição. Os registros permanecerão registros, e, por permanecerem, estarão semi-mortos, ainda que capazes de leves ressonâncias. Os registros são apenas obscuro reflexo, eco ensurdecido de um prazer para sempre estancado." (MARIA BEATRIZ DE MEDEIROS)

Catorze: E como é a relação inversa? O público assimila?

R. – Para cada arte, seu público e seu espaço. Para a Performance, enquanto hibridez, dependendo da proposta do artista e da performance, ela tem ou não a participação do público. Se o público assimila? Eis uma pergunta que se dirige ao público, não aos Performers… Mas, fica a dica do Exupéry: "O significado das coisas não está nas coisas em si, mas sim em nossa atitude com relação a elas."

Catorze: É preciso assimilar ou apenas sentir?

R. – Vivenciar, absorver, sentir… É ao que se propõe em geral a Performance-Arte. Há uma frase que já não lembro mais quem a proferiu que diz algo que para mim representa um fato, uma verdade: "todos saímos transformados / ou transtornados / duma experiência coletiva".

E para completar, uma citação do O.Wilde que adaptei à Performance: "Há duas maneiras de se odiar a Performance-Arte, odiando-a ou então amando-a com moderação."

Catorze: A que a performance se propõe?

R. – A ser arte, a ser a expressão do artista e cada qual com suas proposições, humanas, estéticas, éticas, etc. A que se propõe a Pintura? A música? A dança? A escultura? A literatura? O Cinema? A fotografia? Toda e qualquer resposta possível a essas práticas artísticas e suas variáveis e matizes, será útil e verdade também como resposta ao que se propõe a Performance.

Catorze: Por fim, fale um pouco do teu trabalho como artista que faz performance.

R. – SER PEDRA É FÁCIL! O DIFÍCIL É SER PERFORMER!

Autores: Equipe Catorze

 Na pacata e conservadora capital do Rio Grande do Norte, um grupo de artistas decidiu fazer algo diferente. Inspirados em filósofos, teóricos da arte ... 9 Comentarios

meu comentário:

(...) Eu sou a Vovó!? KKKKK! Vovó 3.7, nasci em 72, das faíscas e cinzas esvoaçantes do
Poema/Processo, quando o 'movimento' fez sua parada tática, me pariu e eis-me aqui! Criando meus
rastros, deixando-os em aberto, em processo, fluxus, moto-continuum. E inda assim, sou a que tá
inda no começo da trajetória... Engatinhando por térreas & infovias... Ainda estou na ida... Nem
meio ainda... Uma das razões para criar a plataforma PERFORMARE (http://perofmare.blogspot.com/)
é e são as 'lacunas' sobre precursores da Performance no mundo e em nosso mundinho Natal
também... Quem inventou a Roda, é um texto que uso na abertura das Oficinas Performare. É
massante, non-speed, mas é pra instigar a quem se interesse em pesquisar, saber o que se faz e
se fez... Aí vemos que estamos escrevendo nossa própria história e poética pessoal, sem
esquecer, que quando chegamos aqui, outros já passaram e especularam e realizaram sob nossos
passos... E depois, de depois e sobre nossas trilhas, mais virão...

Recomendo uma passada no PERFORMARE e a leitura (e captura!) da Revista BROUHAHA Nº 10/2007
sobre o 'quarentão' POEMA/PROCESSO, numa edição histórica e rara com diversos registros de
ícones de nossa cultura potiguar. Por exemplo, imaginem à época, a  'pacata e conservadora
capital' com o "Projeto Auto-Poema" na EXPOÉTICA 77, quando o Jota Medeiros se auto-mutila e
constrói o poema com seu próprio sangue com a participação do público presente. Memórias,
memórias... A vida e a arte são mais rasas sem elas!


* Acompanhe a Revista Catorze pelo Twitter: www.twitter.com/revistacatorze

--
Civone Medeiros
civonemedeiros@gmail.com | (84) 3086-9286

Natal/RN ~ Brasil